George Ivanovitch Gurdjieff,
O mistério em forma de Mestre

Durante toda a ocupação nazista em Paris, um minúsculo apartamento a
poucas quadras da catedral ortodoxa russa da Rua Daru fervilhava de emoção e
perplexidade. Sem alarde, as janelas permanentemente cobertas com tapetes
aderiam ao blecaute obrigatório e lá dentro perdia-se a noção do tempo.
Havia um Mestre. Pouco ou nada se sabia sobre ele, mas aquele em quem ele
pousasse os olhos ou a quem dirigisse a voz uma só vez era marcado para
sempre. Era impossível vê-lo e esquecê-lo. Assim como era impossível vê-lo e
não ver-se a si mesmo, tocado por uma varinha mágica — que ele chamava de
“consciência”.
Encontrá-lo era encontrar-se a si próprio, ainda que por um breve
momento. Talvez este tenha sido o motivo de ser ao mesmo tempo tão amado e
tão temido. Ver-nos a nós mesmos é o legado que nos deixou — um legado
difícil, assustador e, no entanto, abre o caminho que conduz à verdadeira
liberdade.
Gurdjieff influenciou o mundo atual de três maneiras distintas.
Diretamente, através da tradição oral, formou discípulos que, por sua
vez, formaram grupos e até hoje dão prosseguimento ao Trabalho. Foi desta
maneira que ensinou o eneagrama.
Indiretamente, de modo tão invisível e anônimo quanto os heróis da
resistência francesa, suas sementes se infiltraram nas correntes ideológicas
contemporâneas sobre o homem e o universo.
Foi ecologista pioneiro, ao mostrar, no Raio da Criação, o lugar que o
homem ocupa no organismo único da Vida Orgânica sobre a Terra.
A simplicidade estonteante de suas explicações das leis que regem o mundo
conquistou as mais arraigadas mentes científicas.
Seus métodos para o trabalho sobre si, o autoconhecimento e o
desenvolvimento harmonioso dos três centros do homem (mental, físico e
emocional) deram novas e sólidas bases às modernas terapias psicológicas e a
toda a nova ciência da auto-ajuda.
A música especial, que compôs com Thomas de Hartmann, e as danças
sagradas, coletadas de diversas fontes da Ásia Central e organizadas em um
sistema, começam agora, cinqüenta anos após sua morte, a desafiar o
anonimato.
Sua terceira forma de influenciar foi por meio de livros. Escreveu uma
obra única, a trilogia denominada “All and Everything” (Tudo e Todas as
Coisas), cuja leitura recomenda que seja feita em determinada ordem, o que é
compreensível, pois se trata de “literatura objetiva”, com um efeito
intencional sobre o leitor.
A primeira série dessa trilogia, “Beelzebub’s Tales to His Grandson”
(Contos de Belzebu a seu Neto ), em três volumes, é extensa e complexa.
Escrita sob a forma de escrituras sob um véu exterior de ficção científica,
e com muitas camadas de significado, exige e incrementa toda a nossa
capacidade de atenção.
A segunda série, mais fácil de ler e mais popular, “Meetings with
Remarkable Men” (Encontro com Homens Notáveis ), é autobiográfica e
alegórica, e serviu de base a um filme com o mesmo nome .
A terceira série, “Life is real only then, when 'I am'“, (A Vida só é
real quando 'Eu Sou' ), inclui cinco conferências e um capítulo sobre o
mundo exterior e o mundo interior do homem (The Outer and Inner World of
Man), e termina inesperada e misteriosamente.
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